quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A MULHER MADURA




Affonso Romano de Sant'Anna



O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão.

Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs.

Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente.

A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago.

Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia.

Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto.

Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície.

Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender.

A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior.

Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo.

Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia.

Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.



Affonso Romano de Sant'Anna é um caso raro de artista e intelectual que une a palavra à ação. Com uma produção diversificada e consistente, pensa o Brasil e a cultura do seu tempo, e se destaca como teórico, como poeta, como cronista, como professor, como administrador cultural e como jornalista.

11 comentários:

El Brujo disse...

Adorável!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Nas noites de lua cheia
Sai em caça de tua presa
Coberta de mistérios
Há magia nos teus olhos
Brilham frente a tua frágil presa
É a loucura estampada
É a loba no cio
Em fogo, encanto...
Exala desejos
Percorre a noite loba
Espreitando,
Como os elementos
Ciente do seu poder
Na tua fome de viver!

Deusa disse...

hum....rsrsrs
que lobinho esperto esse..!! rs

Ana Cristina Cattete Quevedo disse...

Que belo e verdadeiro texto.
Por isso gosto tanto desse moço.

(mas vou te contar, heimmm...voce não parece mãe daquela moça que vi no post do Jardim Botanico! Parecem irmas! )

=)

http://incongruentelisura.blogspot.com

Deusa disse...

Ana querida é que casei muito nova , porisso !!
E quando vamos tomar um drink la no Bistrô do MAC ?
Topas?

Anônimo disse...

preparando um drink agora aqui no rick e não no mac... e brindando a vc... não achei as surpresas nos anteriores

Deusa disse...

hummmm..
que drink estas preparando ?
to aqui tambem me aquecendo com um champanhezinho
TIM TIM
E AO QUE BRINDAREMOS?

El Brujo disse...

se for não vou querer sair!

Anônimo disse...

飲み物をします。

El Brujo disse...

M Chandon

Zé Carlos disse...

Gostei demais de conhecer seu Blog Deusa e vc não nega o nome, muito linda.
Um beijo grande do ZC

Deusa disse...

Zé Carlos
Obrigada pelo elogio
Adorei tambem conhecer o seu blog
Teremos muitas trocas interessantes , sua abordagem sobre varios temas é fantástica
Um Grande Abraço