segunda-feira, 19 de abril de 2010

RELACIONAMENTOS


Estava eu lendo Rubem Alves aquele mineirinho danado de bom na escrita, entre outras coisas , quando me deparei com esse texto que me chamou atenção sobre Relacionamentos .
Ele faz uma analogia muito boa comparando casamentos à jogos tais como Tênis X Frescobol.


"Depois de meditar sobre o assunto concluí que os casamentos ou (relacionamentos) são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol.
Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: "Ao pensar sobre a possibilidade de relacionamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice?.
Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar." Scheherezade sabia disso.
Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são decapitados pela manhã, e terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O Império dos Sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, Sheherezade o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites.
O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fosse música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer.
Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras.
E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinhos com as palavras não é repetindo o tempo todo: "Eu te amo". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, EU TE AMO não quer dizer mais nada".
É na conversa que nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética.
Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".
Tênis é um jogo feroz, o objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar.
O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente por aí que ele vai dirigir sua cortada palavra muito sugestiva - que indica o seu bjetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar.
O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora do jogo.
Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
Frescobol se parece muito com tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la.
Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra. O erro de um, no frescobol, é um acidente lamentável que não deveria ter acontecido. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo que ninguém marca pontos...
A bola: são nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho prá lá, sonho prá cá... Mas há pessoas que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão...O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração.
O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres.
Bola vai, bola vem - cresce o amor...Ninguém ganha, para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim... "
Rubem Alves

7 comentários:

Hod disse...

Brilhante Deusa Celta. Também sei que o diálogo é o maior dos afrodisíacos. Delicia ler esta quase crônica.

Beijo pra vc.

Hod.

Chica disse...

Muito legal,Deusa e Rubens Alves sempre pega no pontinho exato das coisas...beijos,chica

Luciana Kotaka disse...

Muito interessante sua postagem,nunca havia pensado o casamento desta forma. Obrigada pela visita amiga. beijocas

Maria disse...

DEUSA...,
AMIGA...
POST COMO SEMPRE COM TODA A FORÇA DE UMA DEUSA PODEROSA...AMEI


SAUDADES AMIGA MAS ESTOU RUIM DE FALAR HAHAHAHAHAH.

:)) BEIJOCAS COM MUITO CARINHO E TODA A FORÇA DO UNIVERSO

BEIJJJJJJJJJJJJJJJJJ

Camila Chaves disse...

Nossa, adorei o texto! Perfeita analogia!
Beijos

Amapola disse...

Bom dia, amiga Deusa.

No amor, só fiz estágio... na fidelidade do homem não consegui confiar. Sempre tive a impressão, que cartas ele tinha nas mangas, para no fim ganhar sozinho, como nos jogos de azar!

Um grande abraço. Bom feriado.

Sonia Schmorantz disse...

Texto e imagem perfeitos!
beijo